Uma estadia na Bélgica
O europeu se cansou do catolicismo
Uma estadia na Bélgica
O europeu se cansou do catolicismo
Faz oito dias desde que cheguei na Bélgica. Agora é domingo de Páscoa e cheguei na festa de Nossa Senhora das Dores. Nessa semana creio que liturgicamente passei por todas as experiências possíveis e o estado humanitário que a Europa se encontra hoje é possível verificar em suas igrejas também. Começando pelo começo, eu estava muito cansado então não consegui fazer muita coisa na sexta-feira. Peguei o metrô errado e fui parar no outro lado da cidade, o que me permitiu ver alguma igreja (creio uma catedral) de longe e verificar, mesmo que rapidamente, como é visualmente as áreas menos favorecidas de Bruxelas. Em resumo, vi muitos imigrantes de diferentes raças, muitas mulheres de hijab, jovens loiras saindo com suas amigas muçulmanas, uma mãe cuidando de seu bebê enquanto um homem negro bem alegre brincava com o bebê que o olhava com carinho e alegria. Pessoas fazendo as tarefas diárias delas, da maneira como precisavam fazer. Na estação que desembarquei errado, após buzinas e pessoas avisando que eu tinha que sair do vagão pois havia chegado ao fim da linha, nessa estação, um jovem branco com olhar muito vazio, cabelos bagunçados e dentes escuros me abordou pedindo dinheiro para comer. Com receio por estar em um local desconhecido, não busquei minha carteira e falei para ele que não podia ajudar. Pesquisei na internet qual metrô deveria pegar e embarquei agora na linha correta com a direção correta. Chegando na estação certa, desembarquei até chegar ao hotel. Região muito bonita a de Sint-Gilles, com uma arquitetura de Victor Horta, bem agradável. Parei para almoçar um waffle de Brussels (um local autêntico nunca vai vender Belgium Waffle pois existem dois diferentes). Tentei trabalhar até a missa de noite, mas o jet-lag me pegou e dormi até a hora de sair. Fui caminhando até a Eglise St Joseph, a maior Igreja da SSPX do mundo (ou da Europa). Belíssima Igreja, mas como ainda estávamos na Quaresma, as imagens estavam todas cobertas. Durante o período antes da missa, o órgão passou a ser tocado extensivamente pelo que parecia ser o padre que iria celebrar a missa. Belíssimo som de um órgão de verdade numa Igreja de tal magnitude. Cena rara em outras Igrejas, que possuem a estrutura mas não a prática nem a vontade. Freiras de hábito (a roupa religiosa) preto chegaram e tomaram os seus lugares na primeira fileira, junto de diversas crianças que estavam ansiosas para o início da missa. Começa-se a missa, inicia-se o Introito e as freiras antes silenciosas em suas orações começam a entoar hinos na missa cantada que estava a desenrolar. Vozes tão lindas e tão suaves. Nunca havia ouvido algo assim. Normalmente são vozes de homens e algumas mulheres, mas um coro só de mulheres foi bem diferente de algo que eu já havia ouvido. Quando eu menos imagino, vejo as crianças indo para perto das freiras e penso que elas vão ficar junto para aproveitar, mas eu estava errado. Crianças de 6 a 10 anos começaram a cantar juntamente das freiras em um arranjo que um músico desalmado julgaria ser desafinado e fora de tom, mas que foi a cena mais fofa de todos os dias que estive na Bélgica (junto talvez do homem interagindo com o bebê no metrô). Ouvir crianças pequenas cantando (mesmo que um pouco desafinado) cânticos em latim para Nosso Senhor só me levou até as palavras de meu próprio Senhor: “deixai vir até mim os pequeninos”. Bem, após o fim da missa, saí renovado para voltar ao meu hotel, parei para comer algo que não lembro direito (mas lembro que comprei a primeira cerveja belga que bebi no sábado por ter ido dormir de tanto cansaço).
No sábado saí a andar pela cidade buscando conhecer um pouco mais sobre sua história. Visitei o Port de Hal. Uma antiga fortificação que servia como porta de entrada no muro externo de Bruxelas na alta idade média. Depois foi transformado em museu e até hoje funciona como um museu. É a única estrutura intacta do antigo muro externo. Foi interessante ver os diferentes aspectos da cultura de Bruxelas se desenvolvendo ao longo do tempo. Uma cidade onde tudo circulava ao redor da catolicidade. Cada guilda de comerciantes tinha seu santo padroeiro, faziam grandes obras de caridade na festa do santo bem como competições para ver quem seria o “rei” da guilda durante o ano. Funcionava assim: uma vez por ano as pessoas se reuniam e tentavam acertar um alvo em formato de pássaro amarrado no topo de um prédio. Numa dessas vezes, quem acertou foi a arquiduquesa Isabel e ela se tornou Rainha da Guilda. Se fosse nos dias de hoje seria um exemplo de feminismo, mas a mente do povo católico medieval não é materialista dessa maneira. Comemoraram, ela fez obras de caridade e fizeram uma grande festa. Seu marido, longe do imaginário de um macho opressor, a ajudou a acertar o alvo e foi simplesmente retratado como um pequeno homem sentado enquanto olhava ou ajudava a esposa a recarregar uma crossbow. Tudo naquela época girava em torno da religião. Tanto as coisas boas quanto as ruins que se apropriavam das religiões, mas o belga como ser religioso, é tradicionalmente católico. Inclusive é esse o motivo pelo qual os Flamengos (da região de Flandres), mesmo falando holandês, decidiram se juntar ao povo do sul que falava francês e eram católicos ao invés de se juntarem ao povo do norte que era protestante e falava a mesma língua (holandês). No entanto, essa cultura parece ter de fato se tornado história de museu. Mais sobre isso depois. Nesse dia ainda, visitei diversos locais, vi prédios antigos municipais que tinham uma grande obra de arte retratando a realeza de Jesus perante as criaturas, como dizendo: “nós, os governantes, nos submetemos a Cristo”. Ao final do dia fui à missa e na volta para o hotel fui abordado por um mendigo que começou a me seguir e pouco depois, a uns 10 metros à minha frente, uma mulher começou a bater em um homem e outro homem foi acalmar a mulher. Aproveitei a confusão para fugir do homem que me seguia e tentava me abordar. Entrei numa pequena loja para terminar de comer a comida que havia acabado de comprar e então segui para o hotel.
Domingo de Ramos foi belíssimo. Começou fora da Igreja com a benção dos ramos e a entrega um a um pelo sacerdote. Para receber o ramo, cada pessoa devia ajoelhar, beijar a mão do sacerdote, beijar o ramo bento e recebê-lo em suas mãos. Esse pequeno gesto fez naturalmente aumentar a noção sobrenatural acerca dos ramos. Um respeito instintivo cresceu por tão belo sacramental. Teve então uma bela procissão de ramos com cânticos que eu pude acompanhar pois eram os mesmos da paróquia que eu frequentava em Brasília.
Na semana seguinte, pude experimentar a grandeza da região de Flandres, mais especificamente pude beber boas cervejas e visitar Leuven. Leuven é uma cidade com uma riqueza histórica grandiosa. Foi palco de importantes conflitos na história da Bélgica e por séculos foi extremamente católica, com sua Universidade, a KU Leuven, um dos principais centros de teologia e filosofia da Europa. A cidade inclusive pode se orgulhar de ainda ter um alojamento para estudantes que foi criado por doação do Papa Adriano IV após ter sido padre naquela região. A universidade era somente para homens e buscava formar grandes leigos ou religiosos católicos. Deus cuide da cidade de Leuven. Hoje em dia já não é mais católica de fato, somente o nome permanece. Uma pena. Há de se adequar à modernidade, disseram. Não tem como permanecer pregando o mesmo velho evangelho. Precisamos nos adaptar, nos modernizar. O mundo já não é o mesmo. De fato, o mundo após a primeira guerra mundial já não era mais o mesmo. As fundações do Velho Mundo, o mundo católico, já estavam demasiadamente abaladas. O resultado dessa modernização da Igreja na Bélgica foi que o mundo tomou conta da Igreja, e não o contrário. Menos de 5% da população belga vai à missa aos domingos. Desses 5%, a maioria tem mais de 80 anos (ou é o que os belgas me disseram). Fato é que não alcançou-se nenhum dos objetivos traçados na modernização da Igreja. Nem manteve-se a fé, nem converteu-se o mundo e ainda por cima, está deixando de existir. Igrejas vazias, sem padres para tomar conta, dependendo de outras comunidades tomarem conta dos prédios tombados simplesmente porque não há mais católicos. A única igreja que entrei e que não pareceu ser morta ou ter se transformado em museu, foi a Igreja de São José cuidada pela SSPX. Nela há famílias numerosas, crianças brincando na área externa, famílias jovens e velhas, uns três sacerdotes para cuidar do rebanho, grupos de escoteiros, missionários… Deo Gratias.
No tríduo pascal, infelizmente, não consegui participar na quinta e na sexta-feira, pois estava cumprindo meu dever de estado. Mas no sábado de manhã fui participar do Office de Tenebræ. É uma celebração retirada do Breviário (conjunto de salmos que os sacerdotes e religiosos rezam diariamente). Inicialmente estava bem perdido, mas não havia notado que eu tinha pegado o panfleto de outro dia, e não do de sábado. Com o panfleto correto, pude acompanhar. É uma celebração que faz pensar e preparar a alma para a vigília pascal. Nessa celebração, em salmodia (salmos recitados em estilo diálogo) entre as freiras e os presbíteros, mas também com algumas participações dos leigos, ia-se meditando no abandono dos apóstolos após a captura de Jesus. Tinham 15 velas acesas em uma estrutura triangular. Pouco a pouco as velas iam sendo apagadas, representando o abandono. Até sobrar uma única vela: Jesus. Essa vela não era apagada, mas escondida. Até que havia um estrondo, significando o terremoto que ocorreu na terra após a morte de Jesus, e então a vela era recuperada e trazida à vista. Todos saíram em silêncio e retornei às 21h30 para a vigília pascal.
Na vigília pascal começamos na parte externa da Igreja, com uma fogueira. Vou resumir alguns pontos pois é uma celebração de mais de três horas. Na fogueira foi feita a benção do incenso, dos cravos e do círio pascal. O círio foi aceso, significando Cristo, e então entramos na Igreja enquanto relembrávamos da Luz que é Cristo. Já dentro da Igreja, foram feitas diversas leituras em relação às profecias que haveriam de ser cumpridas pelo Messias. Depois foi feito o ritual da benção da água de batismo e o batismo dos adultos. Tudo isso foi realizado em meia luz e as velas eram acesas de tempos em tempos durante a liturgia. Após todos os ritos da vigília, em uma entrada triunfante e entoando o Glória… as luzes se acendem, o órgão em todo esplendor começa a tocar, todos cantam o Glória a Deus nas alturas, as imagens são descobertas e a alegria da ressurreição (daí o nome Missa da Ressurreição) toma conta de todas as almas presentes. Alegria pois Cristo vive! E ao final uma das canções mais belas de todas: O filii et filiae. A mesma inclusive que cantei no ano anterior na Vigília de Páscoa na Capela Nossa Senhora das Dores. Como é belo ser católico!
No domingo de Páscoa levei um amigo na missa. Foi uma bela missa solene e apesar de não ter sido tão magnífica quanto a vigília de Páscoa, meu amigo disse que foi a melhor missa que ele já foi na vida. Eis a beleza de uma liturgia milenar. Tudo tem um por quê, tudo é feito para Deus, não para o homem, mas nisso, o homem eleva seu olhar a Deus e O glorifica.
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